Capa de Happy e John Lydon no clipe de Seattle
Capa de Happy e John Lydon no clipe de Seattle (Reprodução Youtube)
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Meu disco maldito agora só corre riscos em minha memória

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Não lembro exatamente o ano. Pode ter sido ainda em 1987, mas talvez 1988, no máximo. Eu nos meus 13 ou 14 anos. Naquele mundo completamente offline. Foi quando comprei meu disco maldito.

Fã de Sex Pistols, me empolguei com Rise, do Public Image Ltd, o ‘novo’ projeto de Johnny Rotten. Mas, naquela época, meu contato com aquela banda parava aí.

Então, um belo dia, com dinheiro dado pelos meus pais, comprei um disco do PIL. Sim, o que hoje chamamos de vinil, mas que na época era apenas disco. Comprei e, poucos minutos depois, o esqueci em uma lanchonete ou sorveteria do Shopping Muller, em Curitiba.

Com dó, minha mãe me deu o dinheiro para eu comprar um disco novamente. Insisti nesse disco do PIL, que era o único disponível na loja. Não conhecia nenhuma das músicas, mas só poderia ser bom.

Dessa vez consegui levá-lo até em casa e pude finalmente ouvir outras músicas da banda. Bem, apesar de Rise ser bem diferente do que qualquer coisa dos Pistols, eu tinha uma esperança de gostar daquele disco. Mas o que me causou foi estranheza.

Ainda tentei ouvir por algumas semanas. Mas não durou muito. Um dia o esqueci sobre a cama do quarto. Ele passou uma tarde toda ali, com os raios do sol passando com força pela janela. Quando percebi, ele estava todo empenado. Desisti do PIL.

Por algum motivo estava lembrando dessa história há alguns dias e resolvi ir atrás desse meu disco maldito. Era Happy? e, se o PIL era uma novidade para mim, a banda já existia havia uns 10 anos. Aquele era seu sexto álbum de estúdio.

Ouça Happy? no Spotify

Quis ouvir novamente Happy? e pesquisar sobre o álbum. A formação do PIL, além de John Lydon, que voltava a adotar esse nome, tinha John McGeoch, Lu Edmonds, Bruce Smith e Allan Dias, todos músicos com passagens por muitas outras bandas.

Essa formação havia excursionado com Lydon promovendo Album, o quinto disco do PIL, mas todo composto pelo ex-Sex Pistols. O vocalista agora acreditava que havia encontrado a formação definitiva para a banda e iria compor um disco coletivamente.

Happy? mantém uma pegada mais dançante, mas a estranheza que me causou na época também pegou nos integrantes da banda. Os músicos não curtiram a produção do disco.

‘Eu escuto mais produção e equipamentos de estúdio do que a própria banda e isso é decepcionante’, disse Lu Edmonds a um fanzine musical dos anos 90.

Bem, voltei a ouvir Happy? e a estranheza certamente foi bem menor. Talvez porque aquela ingênua sensação de que o disco fosse mesmo mais ‘limpinho’ e de estúdio do que era ‘Never Mind the Bollocks’ havia passado.

Talvez ele volte para o esquecimento por um tempo, apesar de ter gostado bastante principalmente de Hard Times. Mas esse revival foi bacana. O disco, aquele de vinil, continua sendo maldito. Mas agora, digital, esse risco de perdê-lo novamente só existe na memória.

Sobre o autor

Xandão

Zagueiro, roqueiro e jornalista. A ordem depende da situação.